Outro dia, conversando com amigos, alguém falava sobre como o capitalismo tinha mudado no mundo todo, sobre o sistema de controle da mão-de-obra do capitalismo moderno, a precarização, informalização etc. E aí alguém lembrou que isso sempre existiu no Brasil. E eu fiquei pensando, sempre disseram que o Brasil era o país do futuro, iria ser o grande país do futuro. Coisa nenhuma, o futuro é que virou Brasil. O Brasil não chegou ao futuro, foi o contrário. Para o bem ou para o mal, agora tudo é Brasil.
Pequena lista de coisas lindas de 2010
Ainda inacabada.
Filmes
Toy Story 3, que me fez chorar compulsivamente. A Pixar sabe onde ficam meus botões.
Kick-Ass, pela diversão sem sentido, e pela linda cena do LINDO protagonista limpando o sangue do rosto, em frente ao espelho.
Scott Pilgrim, pela direção do Edgar Wright e suas piadas britânicas de continuidade, suas cores, a tipografia interagindo nas cenas, as piadas nerds, etc. Pra ser melhor, só se ele tivesse achado um jeito de usar o Simon Pegg.
Menção Honrosa
El Secreto de Sus Ojos, que é do ano passado mas só vi esse ano, e é outro nível de Campanella;
Tropa de Elite 2, provavelmente o melhor filme comercial brasileiro.
Troféu Como eu Pude Esquecer?
Joseph Gordon-Levitt no Inception.
Discos
Have One On Me, da Joanna Newsom, para sempre a minha musa para quando meu cérebro precisa funcionar criativamente
The Suburbs, do Arcade Fire, que não me deixa esquecer como eu sou sentimental, nostálgica e chorona
Contra, do Vampire Weekend, meu (não tão guilty) pleasure.
Troféu Como é que eu não tinha parado pra ouvir esse disco antes
Sandinista!, do The Clash.
Troféu I didn´t see it coming
Show do Paul McCartney. Life-changing experience compelamente inesperada.
Função da Arte revolutions
Então tentei chegar a todas as sínteses possíveis de dois tipos. Combinando e voltando a combinar, e sempre observando a cultura do elemento puro. Às vezes sonho com uma obra de envergadura realmente ampla, atravessando toda a região dos elementos, dos objetos, dos conteúdos e do estilo.
Isso certamente vai continuar sendo um sonho, mas é bom imaginar hoje essa possibilidade ainda vaga.
Nada pode ser apressado. É preciso que cresça, que desabroche – e se chegar o tempo de tal obra, melhor!
Ainda precisamos procurar.
Encontramos fragmentos, mas não o todo.
Ainda nos falta essa última força, pois o povo não está conosco. Mas procuramos o povo; começamos com isso lá na Bauhaus.
Começamos lá com uma comunidade em que demos tudo que tínhamos.
Mais do que isso não podemos fazer.
Paul Klee, “Sobre a arte moderna”, em “Sobre a arte moderna e outros ensaios”Qual a relação entre a luta entre os homens e a obra de arte?
A relação mais estreita possível e, para mim, a mais misteriosa. Exatamente o que Paul Klee queria dizer quando afirmava: “Pois bem, falta o povo”. O povo falta e ao mesmo tempo não falta. “Falta o povo” quer dizer que essa afinidade fundamental entre a obra de arte e um povo que ainda não existe nunca será clara. Não existe obra de arte que não faça apelo a um povo que ainda não existe.
Gilles Deleuze, “O Ato de Criação“
But go easy… step lightly… stay free
Recentemente eu redescobri a minha obsessão pelo The Clash, a única banda que importa. Tenho me derramado de amores por eles no twitter, no tumblr, no plurk, no last.fm. Não consigo parar. Eis aqui um breve clipping da investigação sobre uma das músicas da minha vida – Stay Free.
This song was inspired by a classmate of Clash guitarist Mick Jones – a man named Robin Banks (formerly Robin Crocker). In an interview with The Guardian in 2008, Banks explained: “Mick Jones and I sat together at Strand boys’ grammar school [in south London]. We had a fight over who was better – I thought Chuck Berry and he thought Bo Diddley. It was a hugely disciplinarian school. The headmaster used to have a wooden leg, so he got the nickname Hobbler. We were marched down to Hobbler’s office to explain ourselves and Mick said, ‘We were arguing about rock’n'roll, sir.’ Hobbler raged, ‘Rock’n'roll is not on the curriculum in this establishment!’ and was so furious that all this gob landed on his lapel. Me and Mick fell about laughing and that was it – firm friends and the end of any respect for authority for ever. Mick had the longest hair and tightest trousers in school. I was a hooligan, basically, because I was bored.
After school I was working as a journalist and got laid off. I fell in with a bunch of people and we decided to rob some banks. I ended up in the Old Bailey. It was like being back in Hobbler’s office. I ended up in a maximum security jail on the Isle of Wight. By the time I got out Mick had formed the Clash. One evening he came over with an acoustic and played me ‘Stay Free.’ Somebody once said to me it’s the most outstanding heterosexual male-on-male love song, and there is a lot of truth in that. It’s a memento of a glorious band, a glorious time and a glorious friendship. Unfortunately, I didn’t Stay Free. I did a wages snatch in Stockholm and got banged up again.” (copiado daqui)
As someone pointed out a bit further up, this song and Springsteen’s “Bobby Jean” extremely similar in many ways; I’d be willing to bet Springsteen took direct inspiration from this song, in fact, given his love for the Clash and all. Both songs are really impressive in their ability to convey this sort of poignant reality of growing up…that you may still care, and you may feel like you’re the same person you were, but you’re not, and that might be a good thing.
Springsteen’s ending lyric of “I’m just calling one last time, not to change your mind, but just to say I miss you babe, good luck, goodbye, Bobby Jean” is such a near mirror of Jones’ “if you’re in the Crown tonight have a drink on me, but go easy, step lightly, stay free” that it’s pretty clear Bruce modeled his song after this.
Two great songs from two great songwriters. (na discussão sobre a letra da música, no SongMeanings)
Aqui está o Clash tocando Stay Free ao vivo, em Paris, 1980:
E aqui, o Mick Jones cantando Stay Free no filme Rude Boy (1980):
da utilidade do last.fm
Quando não tenho com quem falar sobre as músicas de que gosto, eu leio e comento sobre elas no last.fm.
Meu tipo de comentário preferido é aquele que parece vir de alguém tão obcecado quanto eu.
Este é sobre team, do Bon Iver
Qualifiqueichom chom, qualifiqueeeichom
(Em casa e no trabalho a gente anda com a mania “rebolation” de terminar qualquer palavra com “eichom”)
Qualifiquei o meu projeto no mestrado – ou tive o meu projeto qualificado – na última quarta feira. Eu estava um pouco ansiosa, sem saber direito o que esperar desse momento, mas fiquei absolutamente contente com o resultado.
Boa parte da minha “contenteza” vem do fato de que todos os membros da banca concordaram em dois pontos cruciais: falta de foco no problema e objetivos, bem como uma certa esquizofrenia metodológica. A unanimidade da banca em relação a estes problemas me faz considerá-los pontos a serem realmente encarados com seriedade nos próximos meses. Também saí da qualificação com a sensação nítida de que preciso trabalhar a minha auto-estima, já que ouvi coisas como “tu tens que aparecer mais no trabalho” e “tu é mais corajosa do que aparentas no texto”. Ainda que eu prefira pecar por falta de auto-confiança do que por excesso, acredito neles(as). :)
Por fim, fico contente com o processo como um todo. A escrita e qualificação do projeto me fizeram perceber como é importante descrever minuciosamente o que se passa na minha cabeça, sob pena de pecar por falta de clareza e acabar sendo mal-interpretada nas minhas intenções. As próximas semanas serão de organização: listar os conceitos que aparecem no projeto e separar, dentro destes, quais são os que “merecem” se fazer presentes na dissertação, enquanto comparo o “esqueleto” do trabalho com as observações presentes nos pareceres da banca.
Enfim, trabalho não me falta. :)
P.S.: Registro aqui o meu agradecimento aos meus avaliadores (professores Raquel Recuero, Cleber Ratto e Maria das Graças Pinto). Os comentários, críticas e sugestões de vocês certamente me ajudarão muito a dar continuidade ao trabalho. Valeu mesmo. :)
ok to go
Projeto da qualificação feito, impresso, encadernado, pronto pra entregar pros membros da banca. :)

playlist
A história da minha vida em 99 músicas.

Tudo o que eu faço
alguém em mim que eu desprezo
sempre acha o máximo.
Mal rabisco,
não dá mais para mudar nada.
Já é um clássico.
(pauloleminski)
Pós-modernismo para as massas
Todo mundo comenta o novo vídeo da Lady Gaga, Telephone (nem vou linkar, todo mundo já viu) como se ela tivesse descoberto a pólvora. O vídeo inclui uma quantidade absurda de referências à todo tipo de elemento da cultura pop: Michael Jackson, Quentin Tarantino, Alexander McQueen, you name it. Algumas citações são bem óbvias, outras são mais sutis; mas estão todas lá, sendo escamoteadas por quem quiser mapeá-las.
Também gostei muito do vídeo: figurinos, roteiro, edição, coreografias – tudo ótimo. Porém, fico pensando nas coisas que o Beck faz há mais de dez anos, e em como ele é inteligente em escolher e “samplear” suas referências. Um exemplo disso é a maneira como ele cita “Desafinado” em “Ready-Made”: além de “colar” um pedaço da música do Jobim na sua, ele toca o riff da música num violão e coloca lá também. Esse é só um exemplo do uso que ele faz de tantos outros ready-mades (hein, hein): se eu pego o encarte do Odelay! pra ler os créditos, encontro milhares de outras coisas que, empilhadas, formam uma das obras mais bonitas dos anos 90.
E eu ainda nem mencionei os videos do cara. Não tentarei contar as referências visuais presentes no New Pollution – que por sinal, soa meio “Tomorrow Never Knows” / “Taxman”:
Por essas e por outras é que eu digo que o Beck Hansen é o meu Bob Dylan. Melhor do que ninguém (e antes de todo mundo), ele entendeu o espírito da época em que ele está inserido e brincou com isso de uma forma que continua sendo (pra dizer o mínimo) relevante até hoje.