Hoje fazem dezoito dias que acabaram-se os anos 00. Como a gente vai chamar a década 00 daqui a uns 10 anos, quando os cabelos estilo Strokes e a combinação terno+allstar voltarem à moda? “Anos zero-zero” me parece tão estranho.
Passei algum tempo deste começo de ano pensando nesta última década. Não fiz isso para vir aqui e escrever uma retrospectiva, mas por que alguma coisa em mim disparou essa necessidade de pensar um pouquinho no que os anos 00 fizeram por mim.
E o “gatilho” que disparou em mim essa vontade foi assistir, em DVD, a participação do Elastica no Programa do Jools Holland, em 1994.
É engraçado rever este video agora, tantos anos depois. Estas meninas foram minhas “gurus de estilo” por muito tempo: o estilo de vestir, o cabelo curto, a cara lavada. Na minha opinião, só me faltou o sweetheart vocalista do Blur pra que fosse a Justine em 1996.

puta mundo injusto, meu
Nos anos 90, eu tinha com a música uma relação muito parecida com a que tenho hoje. Eu ouvia falar das bandas e discos pelas revistas que lia. Eu lia QUALQUER revista de rock: Bizz (depois ShowBizz, depois Bizz de novo), Rock Brigade, General, Top Rock (não pergunte), Dynamite (como assim, ainda existe a Dynamite?). Eu tinha uma FOME DESESPERADA por conhecer música nova. E colecionava revistas, lendo reviews de discos que eu não sabia quando teria a oportunidade de ouvir – mas que eu sabia que ia gostar. “Crooked Rain, Crooked Rain” do Pavement foi um desses: eu já sabia que ia amar muito antes de ouvir “Cut Your Hair”.
E esta foi uma música (e uma banda) que eu conheci por que um amigo que tinha um primo que tinha tv a cabo em Porto Alegre gravou pra ele uns clipes da MTV num VHS. Seis horas de videoclipes. Só pra nós.
Quem teve uma adolescência endinheirada ou mais perto de cidades maiores deve rir de tanto anacronismo. Mas lhes digo: era complicado ser gauche na música em 96. Era difícil gostar de coisas que mal existiam. Era difícil ler sobre músicas e só conhecê-las dois anos depois. Era chato ler sobre os clássicos na “Discoteca Básica” sem ter de onde tirar o Velvet Underground & Nico pra gravar num k-7.
Eu posso pontuar aqui as zilhões de diferenças entre saber da existência de banda ao ler a Bizz (como fazíamos em 1994) e conhecer bandas hoje, através do Pitchfork ou do Gorilla Versus Bear. Eu posso mencionar a imensurável e constante oferta, uma vez que eu posso conhecer umas dez bandas por dia se dedicar algum tempo a isso. Eu posso também mencionar a abundância de espaço para a divulgação de toda essa diversidade; nenhum editor vai cortar do Pitchfork o review do último EP do Animal Collective por falta de espaço, por que o review da Lady Gaga vai ocupar todo o espaço disponível. Etc. Etc.
Mas eu não quero pensar em nada disso, então vou assistir ao último clipe do Vampire Weekend pela milésima vez.
E ao ver esse videoclipezinho, eu fico feliz por cada uma das influências que percebo. E fico feliz por esse estilo visual Michel-Gondry-esque estar na moda. E fico feliz por poder ver os filmes do Michel Gondy, pois mesmo quando eles não passam no cinema, existem outras formas de acessá-los. Fico feliz por poder percorrer, um a um, todos os itens da filmografia do Woody Allen, do Judd Apatow, de quem mais eu quiser. Fico feliz por cada EP que o Animal Collective lança. Fico saltitante por cada lista de melhores discos de 2009 que eu leio. Novas coisas pra conhecer, mas agora não mais dois anos depois.
E eu fico feliz, especialmente feliz, por ainda ter aquela FOME DESESPERADA que me caracterizava, lá em 1996.